sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

Pão, cão, coração

Pelo ar cheira a pão quente, que me traz à lembrança o lamber dos dedos, besuntados de manteiga, entre mim e o meu cão Bolinha.

"- Oh Cristininha! Oh filha vai lá abaixo buscar uma canhola e uns pãezinhos de maminha que o padeiro já está farto de apitar!"

Comidas entre Lego e figos lampos, as fatias da canhola ainda fervente, sabiam-me como Maná dos Deuses.
As bonecas da Mana lá iam comendo a parte dela, que era pisca e ganeta.

E eu lá ia, pão numa mão, fisga, espada, carro, barco, o Mundo na outra, alegre pelas figueiras, oliveiras, nogueiras que eram casas, barcos, aviões, foguetões.

Com cão por companhia, olhos castanhos leais curiosos com este mundo, esta vida, numa fase plena de descoberta, andávamos os dois pela Quinta, partilhando diospiros caídos de maduros.

Anos depois, o Bolinha foi para o céu dos cães, de onde sei acompanhar-me sempre nas minhas explorações de vida.

A leveza da infância ainda a mantenho no olhar curioso pela vida, pelas pessoas, pelas experiências.
A Quinta hoje é o Mundo lá fora, num plano tão maior quanto desafiante.

E o pão quente continua a fazer as minhas delícias!

quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

Songs of love and freedom

Deitei fora o teu Amor.
Construído entre acordes e dedilhar de emoções, abriste-te refúgio para as minhas dores.
Contigo trilhei boa parte do meu caminho, nunca mais que a três, mas era a conta que Deus tinha feito para esta etapa.
Ao chegar à praia e perceber que não éramos uno, o caminho mostrou-se bifurcado a partir daquele ponto da areia.
Custou-me largar-te a mão, mas facto é, que quando a larguei percebi que te estava a puxar... Comigo quero quem ande ao meu lado ao mesmo passo, sem ninguém empurrado, puxado ou pendurado.
Custou-me partir-te o coração, mas o meu já o estava há uns tempos, com electrocardiograma e tudo. Mas no papel não veio a dor que tinha da desilusão... Da bolha de sabão rebentada.
Teria sido a neverending song para uma vida, mas foi só a banda sonora de uma fase.
Obrigada Humanjukebox - sei que o teu caminho vai ser infinitamente mais brilhante trilhado sem nós, só em cordas e olhares, pois o teu coração é de ouro, embora imberbe.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Foz de nós

És como um rio, com correntes de doçura e atenção.
Suave.
Não tens ondas tremendas que me arrebatem, nem as tuas marés são violentas que tudo mudem brutalmente à sua volta.
Corres e escorres, apartado no teu leito, indo de mansinho à tua foz que é o meu peito, que te acolhe, que te ama, que te aceita.


Rio... e eu Mar.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Size and matter

                                                                    - Claro que o tamanho importa!

Eu gosto de ver claramente à minha frente,  mesmo que seja o nevoeiro que nos assoma.

Agora com egos magnanimamente construídos,  nunca conseguiremos vislumbrar o futuro, pois o que interessa é o nossos umbigo presente!

Não percebemos ainda que quanto mais nos curvamos para ver o umbigo, mais baixamos a cabeça?
Onde é que isso é Realeza de Espírito? Se quando te baixas, te cai a Coroa?!

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Amulhercimento

                                                       Fazem da minha força, a fraqueza onde assenta o mundo.
Na lividez mármorea das minhas costas, todo o peso de fazer girar este globo, as vidas de todos, os bater de todos corações.
De mim, Mulher, tiram a força para seguir em frente e agarrados aos meus cabelos seguimos em cima dos meus pés.
Nas nuvens só tenho as aspirações, essas que me fazem ter vergonha de as ter, sonhos que só são permitidos aos homens, mesmo aos só de letra minúscula.
Sou o farol das crianças, o colo dos idosos, o consolo dos homens. Sou a Mãe da Natureza, a Natureza da Filha, o passado deste presente que se fará futuro.
Hoje como ontem, ergo-me diariamente dos meus escombros, alicerço esperanças para um novo dia, acordo os pássaros, beijo o Sol.
E o mundo continua a girar graças aos homens que tomam como deles esta aura de pérolas, frutos das nossas feridas de Alma.

Corpo

A Igreja diz: O corpo é uma culpa.
A Ciência diz: O corpo é uma máquina.
A publicidade diz: O corpo é um negócio.
O corpo diz: Eu sou uma festa.
(Eduardo Galeano)

domingo, 4 de janeiro de 2015

Torresnovas-me





Beijo-te na fronte como os patos reais ao Almonda, que dele fazem o seu ninho. As margens abraçam-me fiéis como sempre, como casa que és.

Ainda tenho no meu colo o teu cheiro a glicínias, em cacho como o teu cabelo rebelde de outrora, antes de ficar branco como a geada que cristaliza as camélias brancas do meu jardim.

Como tarambola que roda sem cessar, alimentada pela força do rio, assim também eu alimento este amor através da força do tempo, que o solidifica sem empedrenir.