quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Quinta Entr’Águas

                                                          (Foto de Alberto R Correia)

Os Marcelino viveram aí três gerações, histórias não faltam, memórias que nos acompanharão sempre.
Continuo a não conseguir descrever a pena imensa que tenho de ver o estado de degradação da "minha casa", onde volto em coração cada vez que me lembro da minha infância entre diospiros, rãs, figos, cabras, fetos e nêsperas apanhadas da janela da sala no segundo direito.
A querida Vizinha Rosalina (Sousa) no 2. Esq.
A D. Clementina e o Sr. João Maria, no 1. Esq.
Os irmãos Eduardo, António e Lídia no 1. Dto.
Sr. Rocha no R/Ch Dto e o Sr. Alvarenga no R/Ch Esq.
A oficina do meu Avô António Marcelino, cá em baixo no largo, onde trabalhava horas a fio na companhia do seu amigo Zé Polícia.
Nas traseiras da oficina, garagem dos tractores e alfaias agrícolas.
Uma imensidão de fazenda até aos muros que vão desde a entrada na Rua da Fábrica até à subida para o Estádio.
A vala que vem do rio e que passa por baixo do edifício principal, alimentando os tanques e regas das hortas e jardins entre o casarão e o Almonda, desaparecendo para lavagens e arrefecimento das engrenagens e motores da Fábrica de Fiação e Tecidos, que apitava à uma da tarde para o almoço dos trabalhadores, a hora em que a minha Avó Olinda vinha à janela chamar-nos para ir para cima.
Da janela da cozinha do nosso 2.° dto apanhávamos folhas da amoreira que chegava até lá acima para dar aos bichos da seda.
Os cães presos ao tronco da buganvília nas traseiras da casa ladravam aos inúmeros gatos que lá viviam, entre as galinhas dos galinheiros que cada inquilino tinha.
O poço com chapéu triangular que ainda hoje lá deve ter um dos carrinhos de brincar e que por muito que déssemos à manivela, só água saía.
A entrada traseira para o jardim dos Rocha, de arcada de rosas de Santa Teresinha e que desembocava entre roseiras e camélias numa latada de dezenas de metros até a um terreno de hortas e bosque húmido de fetos onde fazíamos picnics nas manhãs de sábado.
No jardim da frente do Rocha, a tarambola que já só rodava com os nossos pendurões de criança inconsequente e feliz.
Fecho os olhos e lembro-me da hera que trepava por todo o alçado principal e da correria dos miúdos quando um diospiro caía de maduro.
Dos diospireiros ao enorme portão, um túnel de arbustos que parecia uma entrada para uma dimensão paralela, pois dentro de uma Cidade existe uma Quinta!

Do coração tudo flui, são memórias muito presentes e felizes. A melancolia inerente faz parte, mas o crescimento da Alma faz-se quando deixamos a angústia e mantemos o brilho no olhar.
Ainda hoje para a 'nha VóLinda sou a "Cristininha",  ainda hoje trepo figueiras e corro em cima do muro branco com o meu cão Bolinha.
Ainda hoje sei ao que sabe a canhola estaladiça e a broa de milho que o padeiro levava na sua carrinha até dentro da Quinta.
Ainda hoje sei o toque do porco-espinho salvo de se afogar na vala (lembras-te Henrique?), o piar do pequeno mocho assustado que recuperou lá em casa  com pedaços de carne que a minha irmã Helena teimava em não comer.
O som do coaxar das rãs nas noites de Verão e o crepitar da braseira aos nossos pés enquanto comíamos laranjas a ver teatro na TV.
O riso da VóLinda enquanto cerzia a nossa roupa e ouvia os Parodiantes na rádio.
Crónicas da memória de quem viveu em pleno uma infância privilegiada de "só " termos ar, água, terra e sol para brincar!

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